Seminário da Swiss Re discute soluções para tornar risco de inundação segurável

Considerando o cenário futuro de aumento das inundações e da população exposta ao risco, evento expôs alternativas ao setor de seguros para ajudar a sociedade a se adaptar às mudanças climáticas.

No Brasil não ocorrem terremotos ou tsunamis, mas o país não está fora do mapa das catástrofes naturais do planeta. As inundações e alagamentos são, de longe, o maior desastre natural, responsável por perdas anuais acima de US$ 1,5 bilhão e por afetar a vida de 33 milhões de pessoas. Entretanto, atualmente, a maior parte da sociedade brasileira não conta com o amparo do seguro para se proteger financeiramente contra os impactos desses eventos.

Diante desse quadro, a Swiss Re decidiu ajudar o mercado de seguros brasileiros a superar esse desafio. No último dia 10 de setembro, a Swiss Re reuniu seus especialistas, sua experiência e soluções no seminário “Respondendo ao desafio das catástrofes naturais no Brasil”, realizado em São Paulo (SP). Na abertura do evento, Stepháne Godier, Head of Client Management P&C, comentou sobre a decisão acertada da Swiss Re de promover outro evento com enfoque em catástrofes naturais. “Avançamos desde então e já produzimos soluções”, adiantou.

A prática de outros países

De acordo com Florian Kummer, diretor de Subscrição de Resseguros de Ramos Elementares para a América Latina, o impacto das mudanças climáticas determinarão fundamentalmente o desenvolvimento socioeconômico do Brasil no século 21. Atualmente, grande parte das perdas provocadas por inundações e alagamentos é quase inteiramente suportada pela sociedade. A ausência da proteção do seguro para esse evento é explicada, em parte, pela seleção adversa, em que os compradores do produto são justamente aqueles que estão mais expostos ao risco.

Considerando o cenário futuro de incremento dos eventos de inundação, Kummer indica dois caminhos. Um seria a adoção de uma boa estratégia integrada de gerenciamento de riscos, a qual também serviria de base para a transferência do risco de inundação ao seguro. Outro seria a mudança de paradigma na cooperação entre o setor público e privado.

Para Kummer, é perfeitamente possível não apenas segurar o risco inundação, como estender o seu alcance à população mais vulnerável. “Mercados de seguros eficientes existem em vários países, desempenhando um papel fundamental para estas sociedades”, afirmou. Nos Estados Unidos, por exemplo, as seguradoras distribuem o produto e o governo assume integralmente o risco e arca diferença de prêmio em caso de eventos extremos.

Na Alemanha, as seguradoras oferecem cobertura para inundação como endosso opcional à cobertura de incêndio. Os preços são livres e definidos e acordo com um mapa de inundação e um modelo quantitativo. Na França, o sistema é estatal, com preços definidos pelo governo. As coberturas são combinadas: os seguros contra incêndio e roubo oferecem cobertura adicional para riscos da natureza.

Já na Grã-Bretanha, vigora a parceria entre o setor privado e o Estado. As seguradoras precificam o risco, com base em mapas de inundação de alta qualidade produzidos pelo governo, e oferecem a cobertura contra inundação na apólice residencial padrão. Outros países, como o México, adotam o sistema de coberturas paramétricas para proteger bens públicos e população mais pobre. Quando o volume de chuvas ultrapassa determinado limite, as seguradoras transferem o risco ao governo.

Entendendo o ciclone Catarina

Passados dez anos após o ciclone tropical Catarina, o primeiro registrado no Atlântico Sul, ter devastado a região costeira de Santa Catarina e Rio Grande, a Swiss Re elaborou um estudo para entender melhor este fenômeno. Apresentado Peter Zimmerli, Head Atmospheric Perils, o estudo expôs algumas descobertas, como os fatores que inibem a formação de ciclones no Brasil, além do cisalhamento do vento, que até então era apontado como o principal. Os outros fatores são vorticidade, alta umidade, e, principalmente, temperatura elevada do mar. “A má notícia é que essas condições favorecem podem reverter a direção do vento e causar tempestades na costa brasileira”, disse.

Embora seja remota a hipótese de um novo fenômeno semelhante ao Catarina no país, Zimmerli não descarta totalmente essa possibilidade. De acordo com o estudo, se um ciclone atingisse o litoral paulista, por exemplo, as perdas poderiam atingir até US$ 20 bilhões. Daí porque ele sugeriu medidas para melhorar a resiliência da população contra eventos extremos, como a adoção de códigos de construção, diques, estratégias de uso do solo e, ainda, a proteção financeira do seguro. “Não sabemos se as mudanças climáticas são responsáveis por fenômenos como Catarina, mas é possível que tenham relação com o aumento das tempestades”, disse.

Mapa de riscos

Charles Lutz, Senior Treaty Underwriter, chamou a atenção do mercado de seguros para a necessidade de melhorar a modelagem de riscos, sobretudo de inundação, em virtude da previsão de aumento de eventos climáticos no país. Segundo ele, em eventos extremos, geralmente, o prêmio médio calculado não é suficiente, gerando acumulação de perdas. Foi o que aconteceu na Tailândia, por exemplo, onde inundações ocorridas em 2011 geraram indenizações de seguro de US$ 12 bilhões. “Um único evento ‘queimou’ 18 anos de prêmios”, disse.

Uma das soluções, segundo Charles, é precificar o seguro de acordo com o risco, que também serviria para eliminar a anti-seleção, na medida em que torna o preço mais acessível. Este foi o ponto de partida para Jens Mehlhorn, Head Underwriting LA Property & Specialty Underwriting, apresentar o novo mapa de riscos de inundação no Brasil, desenvolvido pela Swiss Re. A ferramenta, que teve origem no mapa mundial Flood Zones, calcula o prêmio de acordo com o CEP de regiões afetadas por inundações.

Ele explicou a taxa corresponde à taxa média de inundação por área ponderada pelo território de cada área no CEP. A ferramenta, que foi desenvolvida com a participação da Intermap Technologies, tem sido aplicada com sucesso em outros países, segundo Jens Mehlhorn. Entre as facilidades, ele destacou a flexibilidade para usar em qualquer dispositivo móvel, os mecanismos de avaliação para única e de múltiplas localidades, a avaliações diferenciadas por atividades e condições de seguro, a inclusão de áreas de inundação e sinistralidade esperada para uma ou mais localidades e o uso como base de cálculo para cenários de grandes perdas.

Adaptação da sociedade

Na última parte do seminário, o consultor em meio ambiente Fábio Feldmann ressaltou a importância parceria entre a iniciativa privada e o governo como estratégia de enfrentamento aos desafios climáticos. “Defendo sempre que para avançarmos no desenvolvimento sustentável, novos arranjos terão de ser feito, que passam pelo engajamento do setor empresarial, do Poder Publico nas varias esferas, da comunidade acadêmica e da sociedade civil”, disse.

Para Feldmann, a indústria de seguros e o governo, juntos, poderiam viabilizar o seguro contra inundações aos mais pobres, que são mais afetados pelos desastres naturais. Ele também transmitiu sua percepção ao estágio de consciência ambiental da população. “O Brasil ainda não entendeu a importância de se adaptar às mudanças climáticas. Por isso, o maior desafio é aumentar o patamar de consciência na sociedade”, disse. Em seguida, o consultor participou de uma mesa redonda com Claudia Melo, Senior Client Manager Global Partnerships, e os demais palestrantes.


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