O uso de cigarros eletrônicos traz riscos à saúde?

Introdução

O cigarro eletrônico, também denominado e-cig, e-cigarrete, entre outros, foi criado há 10 anos por uma empresa farmacêutica chinesa como um produto para terapia de reposição de nicotina (TRN) para cessação do tabagismo e tem ganhado grande espaço de comercialização principalmente nos países da Europa e nos Estados Unidos. Esse dispositivo age de forma a substituir tanto o ato de fumar quanto a inalação da nicotina, sem que haja queima do fumo. Usando um elemento de aquecimento chamado "atomizador", o dispositivo faz evaporar um líquido que contém a nicotina e/ou outros aromatizadores. Visualmente parece um cigarro, um charuto, uma cigarrilha ou ainda um cachimbo, no qual a ponteira funciona como piteira e contém um cartucho substituível.

Há também outros tipos de TRN bem conhecidos como inaladores de nicotina, pastilhas, adesivos e gomas, que são mais efetivos para deixar de fumar do que a abstinência por si só. Porém, mesmo assim, há pessoas que não cessam o tabagismo usando estes produtos como tratamento e, tanto estes TRN quanto os cigarros eletrônicos, mantêm o vício à nicotina.

A desvantagem do uso de cigarros eletrônicos quando comparado a outros TRN é que os dispositivos vaporizadores não controlam eficazmente a liberação da nicotina e possui poucos estudos científicos de efetividade. Mesmo assim, estes poucos estudos apontam 60% maior de sucesso na cessação do tabagismo do que os demais TRN.

Já o ponto de discussão quanto ao cigarro tradicional é a liberação de produtos tóxicos e carcinogênicos, que são inalados, segundo estudo, em doses de 9 a 450 vezes menores no e-cigs e, dessa forma, poderiam ser usados na diretriz de tratamento de redução de danos causados pelo tabagismo.

Outro estudo mais recente de janeiro de 2015 publicado no New England Journal of Medicine, aponta resultados diferentes do estudo citado acima. Novas evidências comprovam que há formação de formaldeído durante o processo de vaporização dos componentes químicos dos e-cigs (propileno glicol e glicerol). Não se sabe bem ao certo como essa substância se comporta quando inalada, mas ela é classificada como carcinogênica de grupo 1 e a inalação a longo prazo das concentrações  geradas a partir dos e-cigs pode aumentar em até 15 vezes o risco de câncer quando comparada ao consumo a longo prazo de cigarros tradicionais.

Legislação e consumo

Os pontos divergentes sobre o tratamento e, principalmente poucos estudos científicos e resultados divergentes, levaram a Agência Nacional de Vigilância Sanitária brasileira (ANVISA) a proibir a comercialização dos cigarros eletrônicos no ano de 2009. Porém, há pessoas utilizando este dispositivo no Brasil, pois é proibida a sua comercialização, mas não o uso destes dispositivos e, é possível que os usuários os tenham obtido em outros países ou, ainda, de forma ilegal.

Nesse sentido, o produto não é regulado como dispositivo médico de combate ao tabagismo, tampouco como produto derivado do tabaco, não se submetendo às leis antifumo do país.

No México a importação, distribuição, comercialização e venda dos cigarros eletrônicos estão proibidas pela Lei Geral de Controle do Tabaco. A Comissão Federal de Proteção de Riscos Sanitários (COFEPRIS), que é ligada à Secretaria de Saúde do país alerta a população de que não há evidência científica de que o cigarro eletrônico seja uma alternativa médica eficaz para se deixe de fumar, uma vez que não há provas de eficácia e segurança desse tipo produto. Por essa razão, a COFEPRIS recomenda que não se compre os cigarros eletrônicos.

O órgão regulador dos Estados Unidos (FDA - U.S. Food and Drug Administration) não proíbe a comercialização ou o consumo, mas dispões de informações completas sobre o dispositivo e regula como outro tipo de TRN.

No Reino Unido (UK), os cigarros eletrônicos são considerados como dispositivos de redução de danos e são regulados como produtos de consumo geral. A partir de 2016, e-cigs acima de 20mg/ml de nicotina serão enquadrados nas diretivas europeias de produtos derivados do tabaco (TPD), pois o aumento significativo do consumo geral (18% em 2014) e entre fumantes (52% em 2014) tem alarmado os órgãos de saúde pública deste país.

Apesar de não se ter estatísticas sobre o consumo dos cigarros eletrônicos e suas relações com o tabagismo no Brasil, é importante ressaltar que, segundo o inquérito telefônico brasileiro (VIGITEL), houve queda no índice de fumantes de 16,2% para 14,8% entre 2006 e 2011 e a frequência de indivíduos que declararam ter abandonado o hábito de fumar tem aumentado de forma positiva.

Esse fato possivelmente se deve à implantação da legislação antifumo (proibição de consumo em lugares fechados, proibição de propaganda, limitação de pontos de vendas, etc.) e é possível que, para compensar a diminuição do consumo de cigarros tradicionais, haja maior pressão para comercialização de cigarros eletrônicos como dispositivos não médicos.

O México é um dos países com mais problemas de saúde pública decorrentes do tabagismo. Ações tem sido implementadas pelo governo para minimizar o problema, dentre elas: proibição de fumar em locais públicos fechados, protegendo os direitos dos não-fumantes de viver e conviver em espaços 100% livres do fumo, e divulgação de mensagens e orientações para a diminuição do hábito de fumar. Devido ao conhecimento dos riscos atribuídos ao consumo e a exposição ao tabaco o governo não acredita ser conveniente introduzir, no mercado mexicano, dispositivos que promovam o hábito de fumar – tais como cigarros eletrônicos – uma vez que eles também representariam um risco à saúde.

Sendo assim, é imprescindível que os órgãos reguladores, de saúde pública e o mercado segurador acompanhem de perto o uso dos cigarros eletrônicos, pois há um grande risco de que se tornem atrativos comercialmente para jovens e ex-fumantes e levem, secundariamente, a maiores índices de doenças não transmissíveis relacionadas ao consumo de nicotina e tabaco.

Riscos de subscrição

É comprovado que os cigarros eletrônicos mantêm o vício em nicotina de forma a levar a recaídas constantes ao consumo de cigarro convencional. Muitas vezes, os usuários mantêm o consumo do cigarro tradicional e fazem uso do e-cig em ocasiões sociais.

Estima-se que, atualmente, 1,2 bilhões de pessoas fumem e cerca de 80% das mortes relacionadas ao tabaco no mundo ocorrem nos países de baixa e média renda. O tabagismo é considerado uma epidemia e deve ser entendido como um fenômeno social e a aceitação social e da comunidade em que o individuo está inserido é o principal fator de manutenção do consumo.

Dessa forma, do ponto de vista de subscrição, principalmente quando consideramos taxas de fumantes/não-fumantes e a proibição do consumo no Brasil e no México, o uso de e-cig dificulta a avaliação do risco não ficando claro se é possível considerar os usuários de e-cig como ex-fumantes.

Para abordagens de subscrição mais tradicionais, em que se solicita um exame de cotinina (presença de parte da nicotina na urina) os usuários de e-cigs são considerados automaticamente como fumantes. Ao considerar subscrições mais simplificadas com somente a informação declarada na Declaração Pessoal de Saúde, para o mercado brasileiro, a posição mais conservadora – ou seja, também considerar usuários de e-cigs como fumantes - parece ser a melhor opção.


Autoras:

Iris Vinha – Underwriter Life and Health, Swiss Re

Raquel deFrutos – Underwriting Manager Life and Health, Swiss Re


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Referências:

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Cigarro eletrônico: prós e contras da proibição no Brasil. ENSP FIOCRUZ 2014. Disponível em: http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/informe/site/materia/detalhe/35405

Hidden Formaldehyde in E-Cigarette Aerosols – New England Journal of Medicine, Feb 2015. Disponível em: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMc1413069

ANVISA RDC 46, 28/08/2009 – Proíbe a comercialização, importação e propaganda de quaisquer dispositivos eletrônicos para fumar, conhecidos como cigarro eletrônico. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/e93e3f80474597579fe1df3fbc4c6735/2009-08-31_RDC+46_+Proibi%C3%A7%C3%A3o+Cigarro+Eletr%C3%B4nico_31Ago09_OKpdf.pdf?MOD=AJPERES

Eletronic cigarettes  (e-cigarettes) – FDA EUA 2014. Disponível em: http://www.fda.gov/NewsEvents/PublicHealthFocus/ucm172906.htm

Eletronic cigarettes – ASH UK 2014. Disponível em: http://www.ash.org.uk/files/documents/ASH_715.pdf

VIGITEL Brasil 2013 – Ministério da Saúde. Disponível em: http://biavati.files.wordpress.com/2014/05/vigitel-2013.pdf

RADIS Comunicação e Saúde – ENSP FIOCRUZ. Disponível em: http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/conteudo/vigitel-2-menos-fumantes-e-mais-mamografias

Fatores de risco à saúde no Brasil. Risk Dialogue Series – Swiss Re Centre for Global Dialogue. Disponível em: http://cgd.swissre.com/events/Expert_Forum_on_health_risk_factors_in_Brazil.html#tab_4


 

publicado: 3 de Junho de 2015


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